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Imagem: Guilherme de Germain

URÓBORO       

na velha casa 

a solidão traça uma rotina fúnebre

Amosse Mucavele

         Outro dia ouvi a respeito da história da cobra que morde o próprio rabo, aqui nesse imenso deserto em que se converteu minha casa, parece que essa é essa ilha que não cessa em que me encontro. Estou aqui com minhas coisas, com meus cansaços e minhas dúvidas, apegado à babel de livros ou aos excessos do café. Tantos são as chávenas que esgoto durante o dia, quantas são as páginas de que vasculho do nascer ao raiar do dia. 

          Um dia ganhei uma bola, menino era, mas nunca me seduziram os chutes, caneladas e gritos de gol. O ludopédio sempre foi pra mim algo incompreensível. Ela está ali, como um fetiche, ao lado de “O estrangeiro”, de Camus, para lembrar que ela é tão estrangeira em minha vida e um estádio de futebol é arena inóspita, que não me faz falta. Estou apaziguado por nunca ter paixão pelo desporto popular, que atrai multidões e gera uma energia descomunal no planeta, tanto física, quanto monetária. Apesar de meu autor predileto, com ele discordo em número, gênero e grau. Admira-me que tenha dito que "Depois de muitos anos em que o mundo me ofereceu tantos espetáculos, o que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol." Talvez a bola esteja ali, intocável (desde que a ganhei de meu avô, aos completar sete anos) apenas para me lembrar isso: que no campo existe uma lógica, uma ética e uma norma que eu não consiga encontrar na vida ordinária ou na política. Mas isso não me convence de botar os pés num gramado, as únicas quatro linhas que me interessam são as da página de um livro. Ali, não disputo com ninguém nenhum campeonato, não cobiço a sorte de CR7, Messi, Neymar e outros pelés, garrinchas & ronaldos de agora, (reféns mercenários dos patrocinadores, esses filhos miliardários do esporte bretão, que mal sabem o usar o plural ou colocar corretamente um pronome e ganham – verdadeiro escárnio – mais que um professor ou um médico do serviço público);  compareço a uma partida que não termina nunca, apesar dos intervalos para as refeições e o sono, porque sempre há uma jogada que desconhecemos, um lance imprevisto, um salto ao gol nesse variado time que habita essa casa, onde o tempo, tripudiando as paredes com seus mofos e batizando com ácaro as prateleiras, dizem tanto do imponderável que nos circunda.

       Todos os dias vou para aquele lugar onde me sento a observar a cidade. Da minha varanda, vejo o mundo, sem sair dele. Mergulho no instante e a rua é um rio sem fim. Mergulho os olhos em sua realidade palpável, que confronta com os rituais de dentro, da cozinha, do serviço que se renova a cada nascer do sol, da imutabilidade de todos os gestos, minhas pálpebras sobem e descem como uma porta de aço de uma casa comercial, em sua pandêmica pontualidade.  

 

        Olho em volta, a bola está lá, ensimesmada, entrevada numa solidão povoada pelos silêncios da casa. Mas ela parece me trazer, e não há muita explicação, para essa torrente que replica dentro de mim, como se as madeleines proustianas apertassem o gatilho de minha memória. 

       

           As pessoas passam. Passam lá fora e dentro de mim. As que estão vivas e as que já se foram. Zilda está lá no aconchego da cozinha e me traz mais outro café, o segundo do dia. O bule e a bola estacionária são meus companheiros, faça chuva ou faça sol. Daqui a pouco ela virá aqui me pedir licença para ir embora, o serviço já findo, essas tarefas que se renovam sempre as mesmas na infância de cada manhã e se despede na vetustez de cada dia. 

        Não consigo interditar o que me incomoda, insisto em pagar pedágio à melancolia nessa alfândega de passividade. As coisas assim mesmo: iguais todos os dias. Eu a contemplar a bola muda e enigmática. O café se esvaindo copo após copo, o círculo vicioso de veículos anelando a praça rumo ao nada (animais metálicos conduzindo manequins), permaneço aqui neste nenhum-lugar pra contar a história apagar a luz ver o circo pegar fogo dar murro em ponta de faca enfim matar o que me matou: o tempo e sua inexorável moenda dos dias.

           No fundo de minha alma restam as palavras, o desleixo com o que não posso mudar, a bola, o café: são como a mesma rosa que transgride o asfalto e rompe e vinga e se apresenta contra o fluxo da vida e a indiferença das coisas. Todos os dias estão aqui, apesar das tempestades.  Feito Sísifo, como Prometeu, subindo e descendo a pedra, acorrentado às minhas próprias lutas, ao meu Eu, à minha dor desatinada e solitária numa caverna de muitos labirintos, eu perdido sem o fio de Ariadne, sem o gozo e sem a trégua, enquanto lá fora o tempo se abre, os girassóis proclamam a glória de Van Gogh e tudo aqui, dentro de mim, enviesado, tessitura da dissimulação, a corda-bamba. nessa casa e seus segredos, nesse lugar e seus degredos, os meus olhos tentando alcançar as fronteiras do indizível, o ciclo que não muda, onde está a cauda da serpente que me coube? Deixem estar a bola, tragam o meu café. A roda-viva, o moto-contínuo.... URÓBORO....

Ronaldo Cagiano

Nascido em Cataguases, Minas Gerais, Ronaldo Cagiano formou-se em Direito e foi bancário da Caixa Econômica Federal. Viveu em Brasília e São Paulo, tendo se radicado em Lisboa. Escreve resenhas e artigos em diversos jornais e revistas. Estreou com o livro Palavra engajada (poesia, 1989) e, dentre as obras publicadas, destacamos Colheita amarga & outras angústias  (poesia, 1990), Canção dentro da noite  (poesia, 1998), Prismas – literatura e outros temas  (coletânea de artigos e resenhas, 1999), Dezembro indigesto  (contos, Prêmio Brasília de Produção Literária, 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, 2006), O sol nas feridas  (poesia, finalista do Prêmio Portugal Telecom, 2013), Moenda de silêncios (novela juvenil, em coautoria com Whisner Fraga, 2012), Eles não moram mais aqui  (contos, Prêmio Jabuti, 2016), publicado em Portugal pela Ed. Gato Bravo e Diolindas  (romance, em parceria com Eltânia André, 2017).