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Foto: Leonardo Brasiliense

LIPOINSPIRAÇÃO

A primeira vez que encarei Tereza
face operada em plástica
achei o novo disfarce
melhor que a antiga máscara

 

A segunda vez que encarei Tereza
com silicone empalhada
achei a nova matéria
melhor que a outrora usada

 

Cada vez que vejo Tereza
Sua tez está mais seda
Musculatura mais tesa
Que desconfiado pergunto:
– É você, Tereza?
Como se de outra falasse
De boca nova responde:
– Ela mesma.

AMOR, VEM CÁ

Todas as noites espero

pela promessa do teu espírito.

 

Quero tanto crer no Kardecismo,

acreditar que está aqui,

que foste tu

e não o vento

que atiçou o incenso.

 

 

ORIGAMI DE FOGO

 

 

Baioneta calada no rifle Arizaka,
Hiroo Onoda não desertava.
Guerreiro do Exército Imperial,
ignorava o fim da Segunda Guerra Mundial.

 

Golpeando de espada o bambuzal de Lubang,
tenente Onoda arquitetou uma cabana
e ali, na floresta da ilha filipina,
por três décadas,
comendo cocos e bananas,
viveu sua guerra pessoal.

Anunciando a derrota japonesa,
aviões desfolharam panfletos sobre a selva.
Onoda suspeitou falsas as propagandas
e cumpriu as ordens do comandante:
Não se renda,
não se mate.
Fique e lute!

 

Trinta anos de combate.
Onoda entregou suas armas.
Mas foi preciso que o Major Taniguchi
lhe pedisse pessoalmente a espada.

Antes de morrer,
em janeiro de 2014,
Hiroo Onoda lembrou
das tempestades tropicais na selva,
de sua solidão de soldado,
de seu comandante trovejando:
Onoda, não se mate,
não se renda, Onoda.
Fique e lute
até a morte!

 

Antes de tombar,
Onoda recordou da noite na floresta
em que um macaco társio
se adesivou em seu tronco
enganado por seu uniforme de árvore.
Foi sentindo o silêncio daquele momento
que Hiroo Onoda se rendeu.

 

 

CÓPIA ROMANA
           Para Marcelino Freire

 

 

Nas coxas de Teoxeno,
belo efebo de Tênedo,
Píndaro descansa a cabeça.

 

Nem sombra de flecha persa no céu de Argos.

Xerxes tomou Tebas,
ocupou Atenas.
Píndaro deseja apenas
morrer em paz
no colo do filho de Hagésilas.

Guerra antiga,
velho idílio,
braço perdido da Vênus de Milo,
fragmento de amor nos papiros.

 

Nem sinal de míssil no céu de Pejuçara.

Meu amor gradeia meus cabelos com os dedos.
Império são estas pernas em que deito a cabeça
e esqueço que estou em algum lugar da terra.

PAISAGEM PARA PAVESE

                      "Calar é a virtude da gente."

                                           Cesare Pavese

 

O sol ministra sua palestra

e o mandiocal faz yoga.

As casas, misantropas,

acasalam com a soja

e, silenciosa como uma espiga,

granula uma vila.

 

Os agricultores escrevem na terra.

Os arabescos da natureza

e a geometria das lavouras

bordam na cartografia

o dorso de um tapete persa.

 

A paisagem pensa.
Pastoras de si mesmas,
pastam, campeiras, as emas.
Os patos, na paz da lagoa,
praticam seu budismo de bóias
e a garça, na margem de lama,
deixa sua pena e seu ideograma.

A paisagem pena.
No altar da coxilha,
o evangelho do vento
converte os eucaliptos,
e o tempo destelha,
e as formigas colonizam
a antiga casa dos italianos.

 

A paisagem cansa.

A noite se mija

e a lua principia sua aula

na lousa da aldeia.

Sou aquele homem

que se recolhe com as ovelhas.

Escobar Nogueira

José Eduardo Escobar Nogueira nasceu no ano de 1971 em Fortaleza dos Valos - RS. Atualmente mora em Santa Maria, onde é professor de literatura brasileira. De sua produção, destaca-se: O Meu Primeiro Milagre, Milongol, Curta-metragem, Pejuçara e Borges vai ao cinema com Maria Kodama. Seu trabalho mais recente é Rapaz com Cicatriz (Artes & Ecos, 2020).