• Theodora

O ar da manhã | L'air du matin





L’air du matin

Tu te loves contre moi

L’air du matin

se pose en brouillard lumineux

sur nos pensée naissantes

“Je t’aime”, me dis tu

Un oiseau passe et te répond:

“Elle aussi!”

Car muete

sonnée encore

je sors à peine de ma nuit

Il faut bien se le dire

ce monde-lá ma fait mal

O ar da manhã


Tu me envolves com amor

Ar da manhã

pousas em nevoeiro luminoso

sobre nossos pensamentos nascentes

“Eu te amo”, tu me dizes

Um pássaro passa e te responde:

“Ela também!”

Então muda

com sono ainda

saio a custo de minha noite

E é bom que se diga

este mundo aí me fez mal


La jupe de ma mère

Sous sa jupe légère

tant chose a devenir

um rêve

tout um manège

de saisons a saisir

par um enfant fébrile

A saia de minha mãe

Sob sua saia leve

tantas coisas por vir

um sonho

todo um carrossel

de estações por extasiar

uma criança febril


Des mots noirs

Des mots noirs

à faire chavirer le nuage

à chérir son ombre

à saccager la plaine

à humer les sourires secrets

à regarder de loin la glu de l’existence

à remonter la glissade de l’espoir

à caracoler avec un chevalier

à faire saigner sa blessure

comme le plus tendre des nouveau-nés


Palavras negras

Palavras negras

a revirar a nuvem

a acalentar sua sombra

a saquear a planície

a cheirar os sorrisos secretos

a olhar de longe para a cola da existência

a subir o escorregadio da esperança

a se empinar com um cavaleiro

a sangrar sua ferida

como o mais terno recém-nascido


Fleur d’orgueil

La neige

Partout la neige

À toi 

à l’autre bout de route

où se inscruste l’enfance

À toi, petite

sauf ton âme

justement vaste

pour ne plus conttenir

les allées et venues fracassantes

d’une reine dépourvue d’amour

Il te reste cette fumée

dechirée par tes pleurs

qui s’abattent comme la lave

sur les cicatrices du jour



Flor do orgulho

A neve

Por toda parte a neve

A ti

na outra ponta da estrada

onde se incrusta a infância

A ti, pequena

salvo tua alma

vasta, simplesmente

por não mais conter

as idas e vindas fracassadas

de uma rainha desprovida de amor

Resta esta fumaça 

desfeita por tuas lágrimas

que caem como lava

sobre as cicatrizes do dia


Eté

Ici dans la solitude 

au milieu des miens

ma pensée ne tend que vers toi

mon corps te cherche

comme un animal 

qui déambule

alourdi de ton souvenir

Que faire de ces champs jaunis?

De ces sillons tracés de force dans l’argile

où chaque brin d’herbe 

n’en finit plus de pousser?

Verão

Aqui na solidão

no meio dos meus

pensamentos que só tendem para ti

meu corpo te procura

como um animal

que deambula

pesado de tua memória

O que fazer destes campos amarelados?

Destes sulcos traçados à força no barro

onde cada lâmina de grama

não cessa de impulsionar  



Les mots

Et si le silence

était mon langage...

Avide de savoir

tu récoltes mes cils

la tempête qui me traverse

tandis que je dessine ton nom

à la craie

sur des miroirs

Mais si je penche la tête

comprendras-tu ce geste-nuage

perdu dans le bleu du jour?

As palavras

E se era o silêncio

a minha linguagem...

Ávido de saber

tu colhes meus cílios

a tempestade que me atravessa

enquanto desenho teu nome

a giz

sobre os espelhos

Mas se pendo a cabeça

compreenderás este gesto-nuvem

perdido no azul do dia? 


Isabelle Lagny


Tradução de Antônio Moura


Isabelle Lagny é poeta, escritora e fotógrafa, nascida em 1961, em Paris, cidade em que vive até hoje exerce a profissão de medicina do trabalho. Escreve poemas e novelas desde 1996, e paralelamente ao seu trabalho autora, realiza um trabalho de tradução de longa data, do árabe para o francês, com o poeta de origem iraquiana Salah Al Handani. Como fotógrafa expõe desde 2013. Publicou os livros de poesia Le sillon des jour; Nuit inversée; Poèmes D’Alya e Contrejour amoureux.


Os poemas aqui apresentados são extraídos do livro Este gesto-nuvem, com tradução organização de Antônio Moura, Edições do Escriba, 2019.

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