B R U T A L

 

Por Marta Barbosa Stephens*

 

 

 

 

 

 

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De onde escrevia seus poemas, Claire enxergava o lago. Posicionava o computador na mesa grande da sala de jantar, no centro do cômodo com inúmeras janelas e portas.

Uma luz. Aquele lugar tinha uma luz especial.

Sentava-se à cabeceira, recostada na cadeira defronte ao computador com a tela em branco, braços repousados e mãos entrelaçadas no colo. Vivia assim a espera pela palavra mágica. Que às vezes não vinha.

Mas ela era paciente. E tinha tempo, tinha muito dessa verdade valiosa pela qual se morre e se mata.

Filhos crescidos e marido bem sucedido, respirava a tranquilidade de quem venceu seus sustos. Sentia-se orgulhosa de cada minuto que dedicou (e continuava a dedicar) à família. Nada foi em vão. Mas agora pensava ser menos necessária, ainda que já tenha sido essencial.

Era parte da vida desgarrar.

Assistia em paz seus nós serem desatados, sem intenção de voar ou partir. Era ali que ela queria estar, a uma distância segura do abandono, a esperar que filhos e marido voltassem de seus dias.

Longe de ferir, a nova organização da rotina apaziguou seu coração. Claire estava plácida. Era quase felicidade o que sentia quando, findo o café da manhã, filhos seguiam um caminho, marido outro, e a vida era só ela.

Para preencher parte desse tempo, escrevia poemas. Tinha planos de livros, recitais, encontros com leitores, mas antes precisava escrever algo profundamente impactante.

Ela era paciente e esperava.

 

 

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Do outro lado do Atlântico, Irene largava o corpo no sofá, exausta após um dia comprido. Queria redenção.

Desde que o filho fora capturado como presa, ela não conseguia dormir no próprio quarto. Esquecia-se na frente da televisão, vendo nada, ouvindo nada, até que um sono profundo de quase morte a interrompia, ainda vestida com as calças jeans e a blusa de botões.

Não raro acordava em poucas horas sobressaltada por um som da TV. Levava alguns segundos para entender o que passava e então lembrava-se do filho na prisão, quando deveria estar no quartinho ao lado do dela.

Com o coração apertado de angústia, era nessas madrugadas que ela revia os planos, as provas, a agenda do dia seguinte.

Logo cedo estaria vestida, maquiada e perfumada guiando inquilinos a apartamentos com paredes com tinta velha. Teria o sorriso treinado para quando precisasse disfarçar a descarga rompida. Ganhava por comissão e precisava fazer direito.

Naqueles dias, no entanto, ela não conseguia atender muitos clientes. Precisava usar o tempo de fazer dinheiro para reconstruir a liberdade do seu menino.

Edinho foi preso injustamente, como muitos da quebrada. Antes, foi ameaçado pelos policiais por ser “preto e abusado”, qualidades que um dia o levariam para “o xadrez”.

Irene se culpava por não ter fugido. Se tivesse levado à sério a ameaça, mudado de casa, de bairro, talvez se tivesse voltado para o nordeste, a tragédia fosse evitada.

 

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Ao sentir que a palavra seguiria dormida, Claire caminhou pela floresta, o pequeno cachorro da família saltitante de companhia, até alcançar a beira do lago, onde sentou-se sobre as raízes de carvalhos gigantes. Observar a natureza assim de tão perto a fazia esquecer todos os propósitos. Nada era mais importante ou urgente do que o movimento suave de uma manhã de verão.

No mundo selvagem, tudo está no lugar, embora a tragédia seja sempre eminente. Veja a garça imperial em sua solidão. Um bicho desgarrado, que mesmo entre os seus trava disputas de território que não raro acabam em sangue.

Em uma dessas caminhadas pela floresta, Claire já viu uma garça à beira da morte. Estava ferida. Fora atacada por animais mais jovens que a afastaram do lago, bloqueando a caça até que estivesse fraca demais para lutar.

Que diferença tem da vida?

O homem não é menos selvagem do que garças que, ao migrar, viajam à noite e sozinhas.

Se esse não fosse um ecossistema alterado, se alimentariam apenas de mosquitos e libélulas, mas nesse país também comem peixe.

Pássaros carnívoros, caçadores perspicazes, até que o tempo lhes tire a boa visão, a precisão dos voos, a força da bicada.

Ai já não são nada.

Naquele dia, prendeu a atenção de Claire a família de patos. Uma pata mãe e aquelas pequenas coisinhas desajeitadas, experimentando o som e o espaço sob asas protetoras – não deve existir outra imagem melhor para o amor.

Estava distraída, tão ingenuamente distraída pela beleza estável ao seu redor que só muito tarde se deu conta que os patinhos a beliscar a grama, parte escondidos sob as asas da mãe, eram alvo.

O susto foi ouvir a ameaça estridente do corvo e se dar conta que ele erguia um dos bichinhos no bico, e voava para longe se perdendo na sombra verde da mata. Corvos atacam em bando e logo outro tentou o mesmo golpe. E mais um esperneava do alto, ameaçador.

A floresta era só tensão.

Uma mãe chorava a perda de uma cria e gritava pela vida dos outros, a fugir barulhenta para debaixo das árvores ribeirinhas.

Claire nem conseguiu gritar. A voz faltou quando avistou o corvo voar alto e soltar o pequeno inocente. É assim que eles matam suas presas.

 

 

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Às vezes Irene gritava. Quando atravessava o terreno baldio a caminho de casa, depois de descer do ônibus, e também gritava dentro de casa, por vezes com a cara enfiada no travesseiro para abafar o barulho, outra hora no chuveiro, ou mesmo na sala escura na madrugada, não se importando em acordar os vizinhos. Era desespero o que ela gritava.

E também solidão.

Gritava para ter certeza que ninguém a ouvia.

Na prisão, não dão lençol, travesseiro, toalha, até colchão a família do prisioneiro tem que levar. Também sabonete, xampu, chinelos, meias para o inverno, cuecas, cotonetes com hastes transparentes. Da última vez, os cotonetes de hastes azuis não passaram da vistoria. Disseram que eram escuros e podiam esconder alguma coisa. Irene pensou o que poderia esconder em bastões capaz de salvar seu filho. Agulhas? O que faria seu menino com agulhas atrás das grades?

Nada daquilo fazia sentido.

Edinho não era bandido. No dia em que foi preso, na praça que fica na parte rica do bairro, uma vizinha segurou as duas mãos de Irene e, como um consolo, disse que o problema do menino eram as companhias. Mas que outras companhias ele poderia ter se não os mesmos meninos pretos, pardos e pobres como ele?

Edinho estava a caminho do restaurante quando foi capturado.

Ia almoçar com os amigos antes da partida de futebol de sábado. Ao invés disso, só recebeu um prato de comida na manhã seguinte, ao acordar no chão da penitenciária. Estava tão fraco e assustado que seria capaz de confirmar o que quisessem em troca de paz.

Irene só conseguiu entender a acusação dois dias mais tarde, quando também pôde enfim visitar seu menino.

O que diziam nunca fez sentido. Edinho e os outros dois seriam parte de uma célula de distribuição de drogas. Com eles, a polícia teria encontrado um caderno de anotação, máquina calculadora, algumas notas de cinquenta reais e um envelope cheio de maconha. Provas de que gerenciavam uma boca.

Mas os meninos sequer carregavam bolsas. Nem sacolinha plástica tinham.

Irene precisava de provas.

Foi o estagiário da corregedoria quem sugeriu bater de porta em porta em todas as casas que ficam de frente à praça. A esperança era de que alguém tivesse visto ou alguma câmera alcançado a abordagem.

Naquela semana, ela rezou um pai nosso diante de todos os portões da rua. Falou com interfones e câmeras. Só ouviu nãos. Em alguns casos, sequer a deixaram concluir sua história.

O menino de Irene seguia preso.

Sozinha, ela gritava.

 

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Naquela tarde, Claire sentiu o tempo suspenso, como se algo muito grave estivesse prestes a acontecer na floresta. Protegida pelas paredes do jardim de inverno, ela observou o lago, os patos, o céu azul de insistente beleza. Tudo era estranho.

Não era real aquela paz.

Corvos e abutres se aproximavam do lago. Pareciam homens planejando uma guerra. Desaforados.

Da janela pôde ver a família de patos com três filhotinhos.

Eram quatro ou cinco mais cedo. E continuavam sob ataque.

 

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No vigésimo dia de prisão, Irene não pôde ver o filho. Edinho estava de castigo, trancado em uma cela do tamanho de um caixão. Devia ser um ensaio.

Passaria outras vinte e quatro horas ali por ter se negado a delatar o responsável por uma briga no final da pelada. Sairia com o respeito dos outros, disseram os parentes dos garotos, repassando recados na saída da visita.

Irene foi para casa mais tranquila.

Edinho saiu do castigo muito doente. Era quase pneumonia o que tinha. Da cela-caixão foi direto para a enfermaria, onde ao menos tinha sopa quente, o que foi uma espécie de céu para o menino.

Mas o medo cresceu em Irene. O julgamento se aproximava.

Irene foi ao terreiro, levou pedras para Xangô e pediu pela justiça divina.

Levou também fotos. Um retrato de Edinho vestido para um casamento, e uma fotografia dela grávida, na orla de Santos.

Ouviu do pai de terreiro que Edinho seria forte e resistiria.

Mas ouviu também que aquele menino de Irene nunca mais sairia da prisão. “Em seu lugar, deixará as grades um filho de Ogum. E você vai aceitar e agradecer porque, dali por diante, aquele será seu filho”.

Na manhã seguinte, Irene recebeu uma chamada da corregedoria.

Havia uma testemunha, um garoto da mesma idade dos meninos presos, apresentado pela polícia como comprador de drogas. Havia um endereço no processo entregue pelos policiais. Era preciso encontrar esse menino, fazê-lo dizer a verdade. Ele não era comprador porque ninguém estava a vender nada.

Irene partiu na mesma tarde para o extremo oposto da cidade, um bairro como o seu sem praças, nem calçadas. No endereço, encontrou um casal de meia idade que primeiro disse não conhecer ninguém com aquele nome, mas depois reconheceu ser um sobrinho.

Leonardo Aquiles da Silva era agora só um nome para a família. Sumiu há muitos anos, envolvido com drogas, perseguido por policiais a quem pagava sua liberdade servindo-lhes ao que fosse.

Irene não foi a primeira a bater naquela porta à procura de uma testemunha.

No caminho de volta para casa, pensou no machado de dois gumes de Xangô, para cortar de qualquer dos lados, porque a justiça é neutra.

Irene sentia sangrar.

 

 

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Ao entardecer, quando já as sombras das árvores escondiam a vista do lago, Claire assustou-se com gritos de aves, indistinguíveis entre patos, gansos e corvos. Estridente anúncio de uma tragédia.

Claire continuou onde estava.

Mais tarde, decidiu não mencionar nada ao marido ou aos filhos e fez daquela uma noite como outra qualquer.

Mas na madrugada teve medo. Persistia a imagem do indefeso patinho no bico de um corvo. Não havia nada que pudesse ser feito para evitar que o sangue de inocentes voltasse a ser derramado.

 

 

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Faltavam quatro dias para a audiência quando um dos policiais que prenderam Edinho foi denunciado em uma operação da polícia federal. Estava envolvido em uma rede de tráfico de drogas. O caderno que aparecia na ação contra os meninos foi facilmente identificado como do bando. O promotor público encheu-se de esperança.

Ainda assim, Edinho não foi imediatamente liberado. Esperou pelo julgamento, e só um dia depois que a juíza cancelou o processo por insuficiência de provas foi que o filho de Irene cruzou as grades, livre e com uma nova chance.

Uma noite antes, na sua casinha simples de periferia, Irene não conseguiu dormir.

Estava obcecada com um único pensamento: tomar seu filho nos braços de novo e fugir dali.

 

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Se seguisse seus impulsos, ao abrir os olhos na manhã seguinte, Claire teria ido direto ao lago. Sentia uma espécie de chamado, conectada que estava aos seres da natureza. Mas antes, caminhou lentamente até a cozinha e preparou um café. Agia como se elaborasse os próximos passos, mas seu pensamento estava vazio.

Ao abrir a porta da cozinha, o Jack Russell correu antes, e o ar frio da manhãzinha a transportou de novo ao selvagem. Como se quisesse apenas confirmar sua intuição, Claire tomou o caminho do lago.

Chovia fino e a névoa tornava tudo azulado. Nada era nítido, mas ela pôde ver penas brancas, acinzentadas e pretas pelo chão da ribeirinha. Não havia patos ou qualquer outra ave. Era tudo calmo. Talvez estivessem todos mortos.

Claire quis pisar nas penas que forravam o chão.

Procurou alguma mancha de sangue.

No caminho de volta, resignada à cruel flecha da mãe natureza, avistou o cachorrinho da família saltitante. Precisou se aproximar para ver que ele trazia preso aos dentes um dos filhotes de pato, de pelos ralos amarelos, tão bonito quanto um feito de pelúcia.

Claire quis conter o cachorro. Quis ter a chance de salvar o pobrezinho se não da morte, mas ao menos de ser brinquedo de cão, que fim tão triste, porém agora o Jack Russell entendia tudo como parte do jogo. Ele trazia o bichinho ferido até bem perto de Claire, para então apanhá-lo de novo e correr ainda mais longe. As presas do cão de família erguiam o pescocinho daquele derrotado. O último dos sobreviventes estava abatido. Claire quis gritar.

Encharcada da chuva, ela deixou-se cair na grama e aceitou aquele choro sem lógica, como se tivesse perdido uma batalha.

Chorou, mas logo ergueu-se.

Sentiu-se ridícula.

* Marta Barbosa Stephens é autora de “Voo luminoso de alma sonhadora” (2013, Editora Intermeios) e “Desamores da portuguesa” (2018, Imã Editorial). Tem contos publicados em diversas antologias como “A mulher perdida em narrativas” (2017) e “Perdidas, histórias para crianças que não têm vez” (2017).

 

Marta Barbosa Stephens has published “Voo luminoso de alma sonhadora” (2013, Editora Intermeios) and “Desamores da portuguesa” (2018, Imã Editorial). She is the author of short stories published in various anthologies as “A mulher perdida em narrativas” (2017) and “Perdidas, histórias para crianças que não têm vez” (2017).

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