Sobrevivendo Entre as Bonitas

 

 Linda Maggiore

 

 Eu sou Linda, não nasci bonita. Pelo menos não podia afirmar com certeza. Depois de tantas intervenções no corpo e na alma a memória de um tempo que sempre busquei esquecer era mantida em segredo, não somente dos outros, mas principalmente de mim mesma.  Nem o espelho, que sempre revela o que não gostamos de ver era capaz de refletir aquele defeito incorrigível que me acompanhava desde o primeiro dia.

Somente a noite fazia parir completamente aquela figura, que a luz do dia se esforçava em desbotar. Bonita, maravilhosa, gostosa - a noite sempre combinou com minha personalidade. Foi assim que sem saber exatamente, me descobri por inteira num momento de epifania regada a quetamina, G, bala, pó e maconha - segurando firmemente o copo na mão, assistindo ao nascer do sol, morrendo na piscina asfixiada em bolhas de champagne.

 

Acordei com um grito mudo. O pesadelo de me ver morrer deixou um gosto estranho. O corpo suado, quente, coração acelerado, acendi a luz da sala, andei até o banheiro, o piso de madeira chiando no caminho, sem me dar conta percebi nesse momento que algo havia mudado definitivamente. O defeito havia desaparecido - já não mais me encontrava no espelho.

Voltei para sala, baixei a luz e me pus a olhar os pingos de chuva que caiam do telhado. A noite estava fria, abri a janela, olhei para baixo, respirei profundo e molhei o rosto com aquela água. Queria ter certeza que estava viva! Aliviada voltei para cama e perdi a hora.

Para sobreviver preciso me deixar morrer. De vez em quando me suicido. Não por vontade. Não sem desejo. A questão é a droga do defeito que só eu vejo, quando estou dormindo. Quando eu era pequena minha mãe me dizia que se eu fosse outra eu seria mais feliz. Como falei não nasci bonita, mas tampouco nasci burra. Eu descobri bem cedo que minha mãe não me amava como eu gostaria de ser amada. Foi quando senti a droga do defeito. A dor foi tão grande que meu coração não aguentou. Era preciso pelo menos dois corações para suportar aquela angustia, mas eu só tinha o meu. A única forma de sobreviver foi criar no espelho o esconderijo para o meu defeito, foi lá dentro do coração do meu reflexo que eu escondi meu desamor. Pelo menos foi essa explicação que me dei naquela noite, depois de morrer mais uma vez. 

Surviving Among the Beautiful Ones 

 

 Linda Maggiore

 

I am  Linda, I wasn’t born pretty. At least I couldn’t be sure about it. After so many interventions in my body and soul the memory of a time that I’ve always tried to forget was kept as a secret, not only from others, but mainly from myself.  Not even the mirror, that always reveals what we don’t like to see, was able to reflect that incorrigível defect that followed me since my first day.

 

Only the night could give birth totally to that figure, which insisted to fade in daylight. Beautiful, wonderful, hot – night has always fit my personality. It was this way that without knowing exactly, I discoverely myself entirely during an epiphanic moment fueled by ketamine, G, pills, coke and cannabis – holding firmly my glass, watching the sunrise, dying in the swimming pool asfixiated in champagne’s bubbles.

 

I woke up with a silent shout. The nightmare of seeing myself dying had left a strange taste in my mouth. The sweaty, hot body, the heartbeat, I turned on the light in the living room, I walked to the bathroom, the wooden floor grating on the way, without realizing I perceived in this moment that something had changed definitely. The defect had disappeared – it wasn’t in the mirror anymore.

 

I came back to the living room, I dimmed the light and I stopped to look to the rain drops falling from the roof. The night was cold, I opened up the window, I looked down, and I washed my face with that water. I wanted to be sure that I was alive! I came back to bed relieved and I overslept.

 

To survive I need to allow myself to die. Every now and then I kill myself. Not because I want to. Not without wishing it. The question is the bloody defect that only I can see, when I am sleeping. When I was young my mother used to say that if I was another one I would be happier. As I said I wasn’t born pretty, but I wasn’t born stupid. I found out very early that my mother didn’t love me as I wanted to be loved. It was when I felt the bloody defect. The pain was so big that my heart couldn’t handle it. It was necessary at least two hearts to stand that anguish, but I only had mine. The only way to survive was to create in the mirror a hiding place for my defect, it was there inside my reflex’s heart that I hide my disaffection. At least that was the explanation that I gave myself that night, after I died once more.  

 

Translated by Virna Teixeira

 

 

Linda Maggiore nasceu sem ser convidada de cesárea em Fortaleza em 1972. É transzodíaca/ transagitária. . Mudou para São Paulo em busca de si mesma. Especializou-se em transformações corporais que afetam o espírito. Atualmente se interessa em compreender como transformações mentais afetam o corpo político em uma era de intolerância. Vive em Madrid.

Linda Maggiore was born uninvited by c-section in Fortaleza in 1972. She is transzodiac/ transagittarian. She moved to São Paulo to find herself. She got specialised in body transformations which affect the spirit. She is currently interested in understanding how mental transformations affect the political body in an age of intolerance. She lives in Madrid.

  • w-facebook
  • Twitter Clean
  • w-flickr