Landscape

 

Circulando entre as fontes acesas do jardim. Antena Um em off: don’t walk away. Tirou as botas, largou não sabe onde, tomou 10 comprimidos, foi dançar, de manhã fiquei conversando até que ele chegasse, arrancando assunto do fundo do meu peito de mulher aranha, tecendo teia telefónica, S.O.S. solto que não peço. À noite no velório estou pensando onde foram parar as botas de pantera, no fundo da lagoa, no quintal da faculdade, na coxia do teatro? Não conheço mais ninguém no parque debaixo das montanhas, nem as botas encontrei num canto do banheiro, em equilíbrio, cano contra cano. Penso em desistir daqui, em esquecer todos os presentes, essa lufa-lufa do espanto do morrer, mas estou fixa atrás de uma coluna, sem piscar, em transe. 

Jururu não sei pedir. Fico enrodilhada. Faço pesca mas não 

pesco nada. 

A. me fala do aeroporto, de passagem. Matter of fact que eu

já conheço, sem desordem.

Sinto um grande cansaço pendurado no fio da minha voz.

Tremuras da desordem. Assuntos que não sei.

Mala diplomática apenas por um fio.

I can’t give you anything but love, babe.

Praga. É uma praga. Você só gosta das partes difíceis.

Hoje te cabe a parte fácil: se sentir alguma coisa pode me

chamar. 

Paisagem

 

Circling between the fountains alight in the garden.  Antenna One on desligado: não vá embora. I removed the boots, left where I don’t know, took 10 pills, went dancing, kept talking in the morning until he arrived, extracting the matter from the bottom of my spider woman’s chest, weaving a telephone web, I send an S.O.S. that I do not order. The night of the wake I am wondering where they put the panther boots, at the bottom of the lagoon, in the college’s backyard, in the theater aisle?  I do not know anyone else in the park beneath the mountains, nor the boots I found in the corner of the bathroom, balanced, shaft against shaft. I think about giving up here, about forgetting all of the presents, this hustle for the panic of death, but I’m stuck behind a column, without blinking, in trance.  

 

 

Melancholic I do not know to ask. I get entangled. I fish but I do not catch anything. To. Tell me about the airport, in passing. Questão de fato that I already know, without confusion. I feel a great fatigue hanging on the thread of my voice. Tremors of disorder. Matters which I do not know. Diplomatic suitcase barely by a thread. Eu não posso te dar nada além de amor, querida. Prague. Is a plague. You only like the difficult parts. Today you hold the easy part: if you feel anything you can call me.

Fotografando

 

Hoje estas delícias do banal me lembram 

quando eu te amava à distância —

trope galope de dois cavalos pelo mato

abro o livro do dever muito depressa

sacudo as folhas do alto da cabeça

e cai um aviso, mania de segredamento

“naquele dia…”

Lampejei. 

 

A luz se rompe.

Chegamos ao mesmo tempo ao mirante

            onde a luz se rompe.

Simultaneamente dizemos qualquer

            coisa.

Então dou pique curva

            abaixo, volto e brilho.

Mirante extremo onde se goza. 

 

Entrando pela primeira vez

no recinto fechado da casa.

Pura tempestade, cântaros, delícia.

Gozo acorda, horto e hotel.

A cidade inundando.

“Agora sou tua amante: já posso sair de madrugada”.

Já posso me fartar e não sou ladra.

Pickpocket!

Desperdício.

Carona,

Tranco.

Fog.

Certa noite avoluma-se a renúncia.

Farol antineblina. Bliss também.

Pensei que não viria mais aqui.

Mas fiz por onde. 

 

Photographing

 

Today these banal delights remind me 

of when I loved you at a distance —

trope of two horses galloping by the forest 

I open the book of duty very quickly

I shake the leaves from the top of my head

and drop a warning, mania whispering 

“on that day…” 

I flashed.

 

The light breaks.

We arrived at the same time to the belvedere,

            where the light breaks.

Simultaneously we say any-

            thing.

Then I bend the spear

            thereunder, I return and shine.

Extreme belvedere where you relish the view.

 

Entering for the first time

the private enclosure of the house.

Pure tempest, cantharus, delight, 

Pleasure wakes up, garden and hotel. 

The city flooding.

“Today I am your lover: now I can leave at dawn”.

Soon I can be satisfied, and I am not a thief.

Carteirista!

Waste.

Hitchhiker.

Jolt.

Nevoeiro.

Surely at night the renunciation swells.

Traffic light antifog. Felicidade as well.

I thought that I would not come here anymore.

But wherefore I did. 

 

 

 

Toalha branca

Uma toalha branca esvoaça —

acontecimento único no espaço —

            embora fluido se diluam entre dúvidas e certezas,

            embora riscos passem invisíveis, vacilando,

            embora meteoros jamais vistos se beijem impotentes,

            embora sombras agigantadas se agitem nos crepúsculos,

            embora abismos contorcidos se abram e se fechem,

            embora coisas imóveis perpassem e retornem,

            embora uma roda gire, silenciosamente fachada,

            embora ninguém se fale, e as vozes encham o ar, 

            embora o preventivo transforme-se em soluço seco,

            embora uma lágrimas — ou milhares — não se agitem,

            embora rodamoinhos eflúvios chamusquem almas —

uma toalha branca esvoaça

decompondo-se a cada vôo, a cada passo. 

 

              inconfissões — 7.11.68

 

White towel

 

A white towel flutters —

unique occurrence in space —

although fluid it dilutes between doubts and certainties,

although risks move through invisibly, vacillating,

although meteors never seen kiss impotently, 

although gigantic shadows sway in the twilight,

although contorted abysses open and close, 

although motionless things pass by and return,

although a wheel turns, silently concealed, 

although no one speaks, and voices fill the air,

although the preventive transforms itself into a dry heave

although a few tears — or thousands — do not well

although effluvial vortexes scorch souls —

a white towel flutters

composes itself with each flight, with each step. 

            unconfessions — 7.11.68

 

            

 

Onze horas

 

Hoje comprei um bloco novo. 

Pensei: a você o bloco, a vocêmeu oco. 

Ao lápis a mão e os pensamentos em coro.

Me sugeriam rimas e sons mortos. 

Pára, coisa. Se oculta, rosto.

Cessa estes ecos porcos,

Esta imundície coxa, este braço torto

Reabre o tapume verde do poço,

Salta dentro, ao negrume tosco. 

E se nada resta afoga-se no lodo

Para que sobre o resto do nada, o sono.

    (Sussurro:) Euvocê.

 

maio/68

 

Eleven o’clock

 

Today I bought a new block.

I thought: to you the block, to you my hollow.

To the pencil in hand and the thoughts in chorus

They suggested rhymes and dead songs to me.

Stop, thing. Itself occult, face.  

Cease these filthy echoes,

This lame thigh, this crooked arm

Reopen the well’s green barrier,

Jump inside, to the crude darkness

And if nothing remains drown in the mire

So that over the remainder of nothing, sleep.

(Whisper:) Iyou.

 

may/68

Ana Cristina Cesar

translated by Sean Negus

Ana Cristina Cesar was born in Rio de Janeiro in 1952. Regarded as one of the eminent avant-garde poets of Brazil during the late 20th Century, she lived for a period in England inspired by her interest in British literature before returning to Brazil to continue her literary career. There she published a body of work including translations, journalism, writing for television, and literary research in addition to her poetry. Several of her earlier books of poetry were collected under the title, A Teus Pés, published in 1982. Cesar took her own life on October 29, 1983. Several of her manuscripts were collected posthumously and published under the titles, Escritos da Inglaterra, and Inéditos e Dispersos.

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